Em grande parte dos empreendimentos residenciais, a portaria cumpre um papel essencialmente funcional: controlar acessos e abrigar áreas administrativas, no entanto, ela assume outra dimensão no projeto do condomínio horizontal Opus Terra da Grama, em Senador Canedo. Com cerca de oito metros de altura, a composição de concreto aparente, projetada pelo arquiteto goiano Léo Romano, traz um desenho orgânico marcado por grandes curvas e superfícies contínuas, e foi concebida como um elemento central do projeto urbanístico, não apenas um ponto de controle de acesso, mas uma estrutura com presença estética e escala monumental. O resultado é uma estrutura que se aproxima mais de uma escultura urbana do que de uma portaria convencional.
Segundo Léo Romano, a proposta foi desenvolver uma arquitetura que estabelecesse identidade própria ao empreendimento logo no primeiro contato, numa experiência arquitetônica que começa antes mesmo de atravessar os portões. “O Terra da Grama é um projeto arquitetônico com linhas originais, com identidade e linguagem contemporânea. Buscamos sair de parâmetros mais tradicionais para trazer um desenho que dialoga com a rua e com a paisagem, sempre com uma proposta visual forte e inovadora”, afirma o arquiteto.
O desafio de construir o que foi desenhado
Transformar esse desenho em estrutura construída exigiu uma abordagem pouco comum em obras civis. Como toda a portaria foi concebida em concreto aparente — ou seja, sem revestimentos ou acabamentos posteriores — cada etapa da execução precisou ser planejada com extremo rigor e precisão. De acordo com o engenheiro responsável pela obra, Saulo Ribeiro, o processo se aproxima de um trabalho artesanal. “A obra civil já é muito manual, mas essa aqui é quase artesanal. O molde requer que façamos ripinha por ripinha, porque como concreto vai ficar aparente e com textura marcada, não pode ter erro nenhuma imperfeição, já que depois não existe acabamento para esconder”, explica.
Para atingir o resultado previsto em projeto, foram realizados diversos testes antes da execução definitiva, desde o mockup até o concreto utilizado na estrutura, que possui resistência de cerca de 50 MPa — significativamente superior ao de obras convencionais — e recebeu uma série de aditivos para garantir melhor fluidez, controle de fissuras e acabamento mais uniforme. “É um concreto arquitetônico. A gente precisou testar tonalidade, tipo de agregado e vários aditivos para chegar ao resultado ideal. Ele precisa ser auto nivelante, não pode formar bolhas e precisa manter o padrão estético da superfície”, detalha o engenheiro.
Outro ponto que torna a portaria singular é a geometria da estrutura. Diferentemente de projetos com curvas simples ou repetitivas, o desenho apresenta curvas bidirecionais, que mudam de direção ao longo da peça. Essa característica tem exigido um nível elevado de precisão na montagem das formas que moldam o concreto. “Cada placa da portaria tem uma curvatura específica. São peças de aproximadamente 1,20 metro por oito metros de altura, com cerca de uma tonelada cada. Para fazer isso, tivemos que gabaritar curva por curva e painel por painel, que nos exigiu um travamento especifico para esse concreto não abrir”, explica Saulo.
A construção também demandou soluções estruturais robustas. Apenas na fundação foram executados mais de dois quilômetros de estacas para suportar o peso da estrutura. Além disso, o processo de concretagem precisa ser feito em etapas cuidadosamente controladas para evitar juntas aparentes na superfície. “Não é simplesmente chegar e concretar. A gente trabalha em camadas, respeitando o tempo do material para manter a continuidade da peça. A ideia é reduzir ao máximo qualquer marca ou interrupção no concreto”, afirma.
Para o engenheiro, o resultado final, previsto para conclusão em cerca de cinco meses (outubro de 2026) irá traduzir o encontro entre arquitetura e engenharia. “O papel aceita qualquer desenho. O grande desafio está sendo colocar aquilo de pé com segurança e qualidade. No fim, além do desempenho funcional e operacional da portaria, ela funcionará quase como um monumento dentro do empreendimento”, conclui o engenheiro.